Na Lisboa contemporânea, duas estudantes de belas-artes vivem um fim de semana de evasão fantasiosa sob a fadiga do capitalismo tardio. A amizade tóxica entre Sofia e a narcisista Amandine é abalada quando Amandine conhece Guilherme, um artista pretensioso, numa mostra independente. Kiss and Be Friends é uma comédia ácida sobre intimidade, identidade e uma geração movida a ironia, ansiedade e Instagram.
A cidade é Lisboa, as protagonistas são duas raparigas, uma portuguesa a outra francesa, a língua franca é o inglês, o ambiente é gentrificado, o meio é o artístico-académico, o tom é satírico, as personagens incorporam uma série de estereótipos, o resultado: uma comédia ácida que retrata uma cidade em transformação. Kiss and Be Friends contraria, do primeiro ao último minuto, o seu título. De facto, os esquemas narrativos e as situações indicam que estamos perante uma comédia romântica, onde o estrangeiro e o tradicional se encontram em território exótico. Mas essa aparência romântica é, de forma sistemática (e até cruel), amputada a cada interação, a cada dichote, a cada jogo de manipulação ou dissimulação. Este não é um filme sobre amor e amizade, ou antes, é-o por contradição. Ana Baldini e Roly Witherow dissecam a superficialidade das relações humanas numa cidade (e numa sociedade) que opera segundo noções de utilitarismo, produzindo um conto moral sobre o valor da autenticidade. (Ricardo Vieira Lisboa)