Qual é coisa, qual é ela, que cresce enquanto decompõe outros organismos? Os microfungos são biodestruidores natos, essenciais para a reciclagem da matéria morta e para a continuidade da natureza. Neste filme-ensaio vemo-los crescer através do microscópio enquanto conservadores de obras de arte tentam preservar a memória colectiva humana. A metáfora faz-se sozinha.
Em Holy Destructors, a sua segunda longa-metragem, Aistė Žegulytė e Vytautas Katkus, na realização e na fotografia, respectivamente, continuam a sua investigação acerca das intrincadas relações entre o ser humano e as outras espécies. Desta vez, apontam a lente para o universo dos microfungos, os reguladores do mundo que, através da sua polifagia, criam nova vida a partir da decomposição. Por entre as imagens prodigiosas destes pequenos trabalhadores, observamos a conservação de múmias, participamos num sombrio rito pascal e fitamos ternamente os ícones do cristianismo: tudo isto exemplos das tentativas vãs, e imensamente comoventes, de preservamos os sistemas que dão algum sentido à destruição que nos rodeia.
Se a morte regula o mundo, nós passamos as nossas vidas a tentar regular a morte obsessivamente, exultando em estranhas tarefas como aquelas que vemos ao longo deste alegre memento mori. Holy Destructors é um trabalho de assombro e curiosidade, um convite a olharmos para os nossos rituais de preservação com uma dose saudável de ironia.
Leonor Castro Nunes