Uma vidente vira as cartas e o destino de AP está traçado: uma maldição que veio para ficar. O que é que se faz nestas circunstâncias? Corre-se. Procura-se mais à frente. Vai-se de mota. 1000 dólares e o corpo de um cordeirinho, nem mais, nem menos, é apenas isto de que AP precisa para se libertar. Pelo caminho, as peripécias acumulam-se e tornam-se cada vez mais estranhas, excessivas, provocatórias e, sobretudo, trashy. Afinal, a cidade em que desagua chama-se Trashtown.
Uma trabalhadora do sexo, uma maldição, cartas de tarot, uma vidente e uma mota – é tudo o que é preciso para uma viagem transformadora em Trashtown. Ao longo de um percurso errático e quase episódico, o filme Fucktoys constrói um universo onde o absurdo e o desejo convivem alegremente sem hierarquias.
Um mundo trashy e queer, sem moralismos, que John Waters já nos tinha apresentado noutros títulos, mas aqui filtrado por uma perspetiva feminina que desloca o olhar: o corpo deixa de ser apenas objeto de choque ou provocação, para se tornar território de agência, vulnerabilidade e reinvenção.
Entre o grotesco e o íntimo, o filme recusa qualquer leitura redentora fácil, preferindo antes um registo caótico e sensorial que espelha a própria instabilidade emocional da protagonista. O resultado é um road movie punk que apresenta o lado decadente e inevitável do capitalismo, que acaba por ser também um ensaio sobre linguagem, identidade e resistência. Arte, trabalho sexual e prática espiritual convergem, para que a vulnerabilidade, o improviso e a entrega se tornem veículos de transcendência, empatia e transformação. Fucktoys não oferece respostas fáceis; convida-nos antes a habitar o desconforto, a reconhecer complicidades e a repensar hierarquias entre corpo, desejo, economia e espírito. (Jéssica Pestana)