Rosa está dentro de uma máquina de ressonância magnética. Pedem-lhe que pense numa memória feliz, algo que ela não tem. Está na hora de a construir, recuando à infância, quando a sua mãe foi presa, acusada de homicídio. E ei-las, num devaneio realista, movidas a uma velha carrinha de cachorros, pelas estradas de terra batida do Norte do Brasil. A longa metragem de estreia de Janaína Marques é uma visita-guiada à mente em ebulição, as suas paisagens, as suas feridas.
Mãe e filha, em fuga pelo nordeste brasileiro, a conduzir uma furgoneta de cachorros-quentes após um assalto à mão armada, chegam a um hotel onde no letreiro se lê, “Toca do Coelho”, em azul e vermelho néon: isto é Rosa no seu imaginado país das maravilhas, quando, numa máquina de ressonância magnética, a técnica pede-lhe que se lembre de uma memória feliz. Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha propõe uma viagem terapêutica pelo subconsciente para redescobrir, ou inventar, essas memórias. Vemos o reencontro entre Rosa e a sua mãe, Dalva (por vezes mais velha, noutras, mais jovem que ela), presa por muitos anos após matar o marido da vizinha. Janaína Marques descola numa primeira longa-metragem sensível e arrebatadora, que, quase sem figuras masculinas, lida honestamente com os temas de violência doméstica, feminicídio, maternidade, amor e reconciliação. Alma e coração em forma de filme.
Falcão Nhaga