A carta não deixava dúvidas: Lisa não quer ser encontrada. Sabe-se que a ausência é também um projecto, o de fotografar campos de futebol consumidos pelo tempo e vegetação na Geórgia rural. Irakli (pai) e Levani (melhor amigo) decidem-se a refazer os seus passos, interrogando estranhos, animais e balizas pacatas. A terceira longa metragem do georgiano Alexandre Koberidze é um retrato ultra lo-fi da convicção familiar em movimento e da desobediência da natureza.
Filmado integralmente num telemóvel Sony Ericsson de 2009, Dry Leaf, que começa como uma investigação bastante convencional de um pai que procura a sua filha desaparecida no interior da Geórgia, transforma-se em algo de profundamente diferente ao longo da progressão do filme. Através da natureza repetitiva da viagem do pai, e com a ajuda da magnífica banda sonora, a narrativa torna-se cada vez mais abstrata e acaba por se transformar numa hipnótica exploração de luz, cor e forma.
Dry Leaf é uma obra prima, e consolida Alexander Koberidze como um dos grandes mestres do cinema contemporâneo. O olhar do realizador é atravessado apenas pelo amor, e o seu último filme é um raro convite a reaprendermos a ver e a ouvir. Se nos deixarmos enfeitiçar, somos confrontados com o mundo, à sua estranheza, aos seus eternos mistérios.
Nabil Aouad