Não é só um dos nomes centrais da Nova Vaga Romena, é um velho conhecido do IndieLisboa, tendo por aqui já mostrado vários dos seus filmes — alguns deles premiados (Aferim!, 2015). Desta vez, o drama segue no encalço de Bram Stoker. O Dracula do sagaz Radu Jude entrega-se à contemporaneidade e a uma Transilvânia onde há pescoços mordidos e greves de trabalhadores.
Diretamente da Roménia, pois claro, realizador, filme e a figura central Drácula chegam para retomar o mito do horrendo vampiro e redefini-lo, desta feita, como conveniente produto. Entre rotas turísticas e estimulantes para aumentar a libido, Drácula torna-se obreiro e produto do processo de mercantilização da cultura, uma lenda sangrenta para saciar a sede de consumo e marketing. Eles comem tudo.
O filme acompanha um cineasta em bloqueio criativo que recorre a um software de IA fictício, o Dr. AI Judex 0.0, para criar o filme “perfeito” para o público. Os condimentos de sexo, violência, humor desbragado, perseguições frenéticas e sangue, sangue abundante, são combinados sem demasiada adesão a conceções de coesão narrativa ou qualidade artística – aqui, o que importa é atender aos desejos febris do mercado. Entre contos dentro de contos, imagens bizarras e interlúdios delirantes, Jude constrói uma farsa que reflete o deserto do cinema pós-autoral, o consumismo cultural e a psicose do lucro.
Drácula, o vampiro, é tão monstruoso como alegórico: quem realmente suga são os mecanismos do sistema realmente existente. Cada cena, cada exagero e cada artifício narrativo sinalizam a transformação da arte em mercadoria. Na fase tardia, tudo – até a memória histórica e o mito literário – pode ser adequadamente embalado, vendido e consumido. Com humor ácido, criatividade audaciosa e uma pitada de caos controlado, Drácula desafia o espectador a rir-se das suas contradições e a refletir e perceber que talvez o verdadeiro horror não esteja confinado ao terrível castelo de Drácula. (Jéssica Pestana)