Apresentação da versão restaurada deste filme espanhol, de culto, mas pouco visto, que, apesar do seu desbragamento homoerótico, passou pelas frinchas da censura franquista. Com os anos, a sua redescoberta afirmou-o pela importância do seu contributo para a história do musical espanhol e pela representação de uma sexualidade não normativa. Em Diferente, seguimos Alfredo, um bon vivant que rejeita os preceitos da sua família rica ao mesmo tempo que esta o rejeita a ele. Um elogio aos prazeres da extravagância queer.
Alfredo (Alfredo Alaría – a coincidência do nome demonstra bem a dimensão autorreflexiva do filme, já que além de protagonista, Alaría foi também coargumentista e responsável pelas coreografias do filme) é o filho “hedonista” e “excêntrico” de uma família rica e conservadora. O seu amor ao teatro e à dança leva-o a conviver com “más companhias”. Diferente é um extravagante musical queer feito em plena Espanha franquista. Pejado de insinuações homoeróticas (por vezes muito pouco subtis), o filme tem como protagonista uma personagem ostensivamente gay cujo desejo é representado sem moralismos, e, ainda assim, conseguiu escapar à censura (“não lhe retiraram um único fotograma, nem um. O primeiro a sair do visionamento foi o Padre Benito que exclamou: ‘É o primeiro filme artístico que vi na vida!’,” recordou anos depois o realizador Luis María Delgado). O crítico e programador Olaf Möller, à revista Sight and Sound descreveu-o como “um filme camp avant la lettre feito com um orçamento generoso. É de arregalar os olhos. É de fritar os miolos. É único. É um verdadeiro pioneiro.” (Ricardo Vieira Lisboa)