“O que consideras casa?” foi a pergunta com que se confrontaram cerca de 3.000 crianças espanholas exiladas na União Soviética durante a Guerra Civil Espanhola. Este filme conta a história de Angelita Perez, que viveu num colégio interno russo dos 4 aos 24 anos, até concluir os seus estudos de medicina. É uma história de resiliência, amor e identidade, entrelaçando passado e presente. Explora também a ligação entre uma mãe e uma filha através de canções e histórias partilhadas.
O título é a pergunta legítima que funciona como a premissa do filme e a resposta são 73 minutos da vida aventurosa da mãe da cineasta. Olhando para o mundo de hoje com guerras à porta de casa, ditadores emergindo a cada canto, e uma tentativa de cultura do silêncio promovendo o individualismo, este parece ser o filme que nos salva. Não digo isto porque o filme encerre respostas, mas porque a sua protagonista de 92 anos não parece ter medo de nada, nem do futuro. Afastada da família com apenas 4 anos, Angelita e sua irmã (juntamente com cerca de 3.000 outras crianças espanholas) rumam para a URSS, em finais dos anos 1930, por causa da Guerra Civil. A narração é construída a partir das memórias da matriarca, de um conjunto de objectos sobreviventes, de canções em russo, e através de uma jornada pelas terras da Ucrânia e Cazaquistão até à Sibéria e depois Moscovo. Uma jornada de 20 anos que culmina com um regresso a um sítio que não se conhece, a familiares com quem perdeu os laços e à construção de uma nova vida. Se este filme é sobre a mãe, ele é também sobre a filha, cineasta e artista plástica, que olha para esta vida como se fosse um mapa que é preciso construir a partir de Guernica, os objectos são reabilitados e usados, transformados, as fotografias ganham vida pelas histórias. Da cineasta filha para a protagonista mãe. Um filme construído em formato puzzle, quase como um jogo, em que o prazer da escuta é igual ao prazer da vista. Um filme sobre o tempo futuro. (Miguel Valverde)