Um treinador de uma equipa de futebol morre. Mas este não é um homem qualquer, deixando um lastro de luto e desorientação. O que se segue é tudo menos um conjunto de disputas contratuais para a contratação do seu substituto; aqui o futebol (ou os seus bastidores) é apenas o cenário para que a devoção e o o-que-fazer-a-seguir se evidenciem. Uma série de encontros e situações surreais toma lugar.
Que destroços deixa a morte de alguém nos que ficam? “Mostra-me a tua ferida?”, perguntam no filme. O contexto das lides futebolísticas, frequentemente marcado por códigos de masculinidade, espectacularização e performance, é deslocado para um território de vulnerabilidade e introspecção que emerge do processo de luto que atravessa esta equipa. Persistem, ainda assim, elementos característicos desse universo, das conferências de imprensa às negociações de bastidores, mas surgem descentrados, esvaziados da sua função habitual. Estamos, por isso, bem longe do típico drama desportivo. O clube de futebol transforma-se num espaço em suspenso, onde os códigos usuais deixam de organizar a experiência e os sujeitos inquietos se questionam em busca de sentido.
Não por acaso, o título do filme é uma referência directa ao poema sufi de Farid al-Din Attar, The Conference of the Birds, onde os pássaros de todo o mundo se reúnem e decidem partir à procura de um rei, apenas para descobrirem que aquilo que buscavam não é senão um reflexo do seu próprio ser colectivo – algo que reside naquilo que são quando deixam cair o ego.
A deriva existencial que o realizador germano-iraniano Amin Motallebzadeh segue com notável contenção nesta primeira longa-metragem manifesta-se através de uma gramática singular que se move “em círculos mais do que em linhas”, num registo visual particularmente envolvente, que se afirma na decoupage, no desenho sonoro, no ritmo e na palavra, frequentemente carregada de insinuações espirituais, sem excluir o ocasional humor.
Conference of the Birds é uma experiência sensorial imersiva e uma reflexão sobre o luto enquanto momento de busca espiritual e processo de cicatrização emocional.
Susana Santos Rodrigues