Camille (Juliette Lewis) entra numa loja de decoração e fica obcecada por uma cadeira. Pouco depois, ela troca de corpo com a mesma e, em menos de nada, percebe que toda a gente à sua volta prefere esta sua versão. O filme de Amanda Kramer, narrado por Melanie Griffith, que estreou em Sundance é uma dramédia com uma fortíssima componente física, onde vemos repetidamente a sua protagonista presa no espaço, à mercê do seu entorno. E onde é impossível não sentir a sátira à objectificação feminina.
Este filme é uma experiência muito idiossincrática. Amanda Kramer retrata um universo hiper, mega estilizado para contar uma história de fetichização absoluta: alguém que deseja possuir um objeto com todas as fibras do seu corpo e, mais tarde, deseja ser esse objeto com todas as fibras do seu corpo. Kramer desenha tudo com um olhar estético rigoroso e um sentido de humor mordaz, seco e que mexe com o espectador. O corpo de Camille, cuja essência (alma?) é transferida para uma cadeira, está tão presente na vida das amigas como antes e a sua relação com a própria mãe fica melhor do que nunca. Não é só que a argumentista-realizadora consegue combinar elementos da literatura, do cinema e da arte performativa para satirizar comportamentos sociais comuns pela sua absurdez, ela revela também a vacuidade e a falta de sentido nas vidas das suas personagens. By Design é uma revolta contra a objetificação feminina, mas é também mais do que isso: um levar-às-últimas-consequências o desejo intenso de se ser desejado, ao ponto de alguém se deixar ser usado.
Ana Cabral Martins