Quase sempre em nudez integral, incendiar guitarras e trazer armas para palco era o pão nosso de cada dia para os Butthole Surfers, lendário conjunto texano nascido no início dos anos 80 depois de dois estudantes de contabilidade, Gibby Haynes e Paul Leary, cruzarem caminhos. O seu rock psicadélico, banhado a radicalismo, caos e imprevisibilidade, marcaram uma geração de músicos, dos Nirvana aos Flaming Lips, passando pela fase inicial dos Red Hot Chili Peppers.
Foi preciso chegar a 1996 para a banda de Gibby Haynes e Paul Leary alcançar o seu primeiro grande êxito: Pepper, do álbum Electriclarryland. Terá sido a porta de entrada para muita gente no universo da banda. Mas quem chegou por aqui, já chegou tarde. Antes já tinham surgido Psychic…Powerless…Another Man’s Sac, Rembrandt Pussyhorse, Locust Abortion Technician ou Hairway to Steven. E não se aconselha ficar à porta. É preciso entrar sem medo, explorar as caves e os sótãos obscuros desta casa em chamas que são os Butthole Surfers, banda de culto, lenda underground, mestres do absurdo e do caos.
Tom Stern entende bem a missão de fazer um filme sobre a banda. Este não podia ser um filme convencional e felizmente não o é. Desde a paródia do número de baixistas e bateristas que passaram pela banda, até à estabilização com Teresa Nervosa e King Coffey, passando pelo infame concerto de 1986 no lendário clube Danceteria, em Nova Iorque, somos conduzidos por uma viagem através de uma iconografia da música e da cultura alternativa norte-americana dos anos 80 e 90. Aqui cabe a lucidez de Steve Albini, os últimos dias de Kurt Cobain, os primeiros filmes de Richard Linklater e o supergrupo P., com Flea e John Frusciante, nos seus concertos no lendário clube Viper Room de Johnny Depp, onde River Phoenix morreu.
Esta é uma das mais brilhantes e divertidas bandas norte-americanas da história da música, que um dia se chamou The Inalienable Right to Eat Fred Astaire’s Asshole. (Carlos Ramos)