Estás prestes a morrer.
O teu ritual de morte de eleição é a Ponte Celestial.
Em Black Hole Descending, as fronteiras entre a vida e a morte esbatem-se à medida que este ritual obscuro se desenrola.
Partindo de um linguajar próprio da pedagogia científica ou dos filmes sci-fi, Rita Macedo propõe uma experiência mental onde se evidenciam jocosamente as contradições perceptivas da teorias quantântica e da relatividade junto o bordo de um buraco negro – e fá-lo pela segunda vez, recorde-se This particular nowhere (2015), onde a proposta do físico Eugene Wigner sobre a influência do observador (do observador) era levada à letra numa sucessão infinita de olhares encadeados. A realizadora apresenta-se uma situação de “ponte celestial” (celestial bridging) onde um estertor de morte ocorre junto a um ponto de “horizonte absoluto”, onde a malha do espaço-tempo está altamente distorcida. O que daí resulta é um paradoxo entre a experiência da morte (fugaz) e a visão do luto (imensamente distendida). Black Hole Descending orquestra este evento solene para – na máxima literalidade e enquanto expressão de um desejo queer – o transformar num gag de slapstick ao ralenti. “In space, no one can hear you laugh”. (Ricardo Vieira Lisboa)