Ao longo das quatro estações de um ano, uma praça no centro de Lisboa transforma-se. A repetição dos dias é observada através das quatro janelas de um quiosque.
Madalena Fragoso trabalhou, ao longo de um ano, no quiosque da Praça das Flores e, durante o expediente, usou o seu smartphone para recolher imagens do dia-a-dia daquele bairro. As Flores encara o espaço do quiosque enquanto dispositivo fílmico: fixo no espaço, virado para o exterior, central e panorâmico. Assim, a partir de planos estáticos (quase integralmente rodados a partir do interior) que circulam ao redor da circunferência do pavilhão, a realizadora encena uma espécie de panóptico invertido, uma torre de vigia para o quotidiano. As figuras reaparecem, os gestos repetem-se, as rotinas instalam-se, assim como a sua disrupção – o alcatroamento da rua, a pintura de um marco de correio, a poda das árvores, uma rusga policial, o turismo. Eis um um retrato coral (tão centrífugo como centrípeto) de um lugar, entendido como microcosmos da (con)vivência. Só que, além disso, há um espectro que assombra esta praceta: a cinefilia. João César Monteiro andou por ali e Fernando Matos Silva ainda por lá anda. Em As Flores espiamos a banalidade e deixamo-nos assombrar pela ausência. (Ricardo Vieira Lisboa)
A pedido da realizadora a sessão de dia 7 de Maio • C.406, não terá legendas descritivas em português