Um barco onde que todos estão adormecidos. Uma actriz que chega aos Açores para se juntar a uma digressão teatral d’A Tempestade, mas que encontra antes algo inesperado e mágico. Toda a ilha é um palco e todas as peças de Shakespeare são interpretadas ao longo do dia. O mundo do filme confunde-se com o mundo da peça e com o mundo real e nós mergulhamos neste jogo poético e metatextual.
Quantas adaptações — modernas, pós-modernas, contemporâneas — existirão de Shakespeare? Um dos autores mais adaptados, conhecido por quem nunca viu a sua obra, o seu nome é adjetivo e, ao mesmo tempo, gatilho para um rol de peças cujos títulos se sabe de cor: A Tempestade, Romeu e Julieta, Hamlet, e muitas outras. Lois Patiño, que nos trouxe Samsara em 2023, volta a trazer um filme bucólico, com uma cadência que não está longe das ondas lânguidas de uma maré ao pôr do sol. O filme joga com ideias de performance, de quem é o actor e quem é a personagem e o que existe no mundo real e no mundo da narrativa, se estes se tocam e mesclam ou estão totalmente estanques. Aqui a narrativa salta para a vida e a realidade é a ficção. Neste filme Agustina Muñoz é Agustina Muñoz e Irene Escolar é Ariel, personagem d’A Tempestade, mas também é Irene Escolar e também é a Ariel personagem de Ariel de Lois Patño. Não se preocupem, tudo fará sentido ao ver o filme.
Ana Cabral Martins