Um tema delicado, filmado de forma crua e lúcida. Nina é uma médica obstetra que está a ser alvo de uma acusação de negligência. Nina é também a única ajuda possível que pacientes possuem nesta comunidade rural na Geórgia onde o aborto é ilegal. Um grito pela autonomia física das mulheres e o peso de lutar contra instituições que não concedem esta liberdade. O filme venceu o Prémio Especial do Júri no Festival de Cinema de Veneza.
Depois de Beginning, o primeiro filme da cineasta georgiana Dea Kulumbegashvili que conquistou uma vitória histórica em San Sebastián (Melhor Filme, Melhor Realizadora, Melhor Argumento e Melhor Actriz), a expectativa era imensa e Kulumbegashvili maravilha de novo: com a sua segunda obra, April, arrecadou em Veneza o Prémio Especial do Júri.
O título do filme antecipa um simbolismo inexorável: Abril é o mês da renovação, mas também o mês mais cruel. Através de uma linguagem cinematográfica única e meticulosa, Kulumbegashvili filma a beleza rural da Geórgia, o florescer de árvores e a mudança das estações índices da jornada de autodescoberta da médica obstetra Nina; e mergulha o espectador no estado emocional da sua personagem principal, criando uma atmosfera claustrofóbica e imersiva, onde é tangível a tensão constante em que vive esta mulher que se recusa a ser silenciada pela sociedade patriarcal.
A mais recente obra cinematográfica de Dea Kulumbegashvili desafia convenções e faz uma reflexão profunda sobre o aborto e as ramificações que essa decisão representa, colocando em primeiro plano a autodeterminação do corpo das mulheres, luta que se revela constante e premente.
Produzido por Luca Guadagnino, April é um filme verdadeiramente arrebatador que deixa uma marca indelével e convida o espectador a repensar a autonomia e o direito das mulheres em controlarem os seus próprios corpos e destinos.
Este filme contém cenas que podem chocar a sensibilidade de alguns espectadores.
(Alexandra Ferraz)