Na aldeia, ficou conhecido como o Soldado. Chegou com um documento que o identificava como herdeiro de uma quinta abandonada. Foi aí que chegou, algures no século XVII, durante a Guerra dos Trinta Anos, nesta localidade protestante germânica, para gradualmente ganhar a confiança das gentes da terra, revelando-se um homem trabalhador e devoto. Mas tudo não passa de uma grande ilusão, que começa a espreitar de forma perigosa. A actriz Sandra Hüller venceu o Urso de Prata para Melhor Interpretação Principal no Festival de Cinema de Berlim.
Há mais liberdade com calças, diz Rose. Passado no início do século XVII, algures na Alemanha, um misterioso soldado, Rose, surge numa aldeia isolada. Silencioso e com o rosto desfigurado por uma cicatriz, este estranho declara-se herdeiro de uma herdade abandonada. Com o tempo, integra-se na comunidade numa busca por aceitação enraizada no engano. A história de quem, desafiando o seu nascimento enquanto mulher, viveu como homem. Através de uma composição rigorosa e de uma austeridade emocional, Rose explora a violência das estruturas sociais e a fragilidade da própria individualidade.
Sandra Hüller (Anatomia de uma Queda, A Zona de Interesse) é esplêndida na interpretação de Rose, com ecos marcantes de Joana d’Arc. Baseado em factos verídicos, o filme de Markus Schleinzer é simultaneamente um estudo inquietante sobre identidade e pertença e uma tremenda conquista cinematográfica, deixando uma marca indelével no público. (Alexandra Ferraz)
“Há alguns anos, uma amiga historiadora telefonou-me para me dar os parabéns e contou-me sobre um interessante caso judicial alemão que associava àquela data. Exatamente 250 anos antes de eu nascer, no mesmo dia, uma mulher tinha sido executada em Halberstadt, na Alemanha, por se fazer passar por homem e ter sido considerada culpada de sodomia. É considerada a última mulher na história jurídica alemã a ter sido executada por este crime. Naquela época, a sodomia era definida como amor entre pessoas do mesmo sexo, no caso homens, bestialidade e penetração com um objeto.
Estes parabéns foram o início de um longo projeto de investigação, no qual estudei centenas de mulheres de diferentes séculos que, por várias razões, vestiam calças para se apresentarem publicamente como homens, nem que fosse apenas por um curto período. Havia muitas razões para isto: maior acesso ao trabalho, fuga, crime, a esperança de evitar violação, a esperança de evitar o casamento forçado, a esperança de viver uma vida mais autodeterminada, a esperança de aceder à educação, desejo lésbico, transexualidade, patriotismo, exotismo. Encontrei também um pequeno número de mulheres soldado com armaduras de cavaleiro e mulheres pirata.
No entanto, o argumento do filme não segue uma biografia em particular, mas representa um conglomerado da minha imaginação e dos destinos individuais que encontrei ao longo da minha jornada por este tema. Há mais liberdade com calças, diz Rose a certa altura.
É exatamente isso que liga todos os destinos das mulheres que encontrei.”
Markus Schleinzer