Fettknölen

Enquanto trabalhava no documentário “Bergman – Um Ano, Uma Vida” (estreado nas salas portuguesas), Jane Magnusson ficou obcecada com o sinal que Bergman tinha no rosto. “Voz Lipoma” dá voz a essa mancha e ao lado misógino do realizador sueco.

Seus Ossos e Seus Olhos

Em 2013, com “O Que se Move”, Caetano Gotardo emocionou uma plateia inteira e quase venceu o prémio do público e o ano passado, com a curta “Merencória”, os casais separavam-se e reuniam-se no entrelaçar de uma balada triste. Agora, com “Seus Ossos e Seus Olhos”, o realizador (e também argumentista, montador e protagonista) lança-nos mais uma vez no baile dos sentimentos, por entre lençóis suados, conversas de sofá, confissões e passeios pela rua. Na tradição de Rohmer ou Sang-soo, mas numa perspectiva queer, este é um filme que nos toca, com a mão aberta, o peito despido.

 

Os Jovens Baumann

1992. Os últimos herdeiros da prestigiada família Baumann, do sul de Minas Gerais, desaparecem sem deixar rasto. 2017. Uma caixa com cassetes VHS é encontrada, contendo registos dos seus últimos momentos, durante as férias na casa da família. Através da compilação desses arquivos familiares, o filme reorganiza os fragmentos de um mistério até hoje sem solução. A primeira longa de Bruna Carvalho Almeida (após trabalhar como montadora, nomeadamente em “Fabiana”, também presente no festival) é um enigmático filme de fantasmas. Em estreia europeia no IndieLisboa.

Tarde para morir joven

Tal como a primeira longa de Dominga Sotomayor (De jueves para domingo, Grande Prémio do IndieLisboa 2012), Tarde para Morir Joven é um coming of age provavelmente alimentado por memórias e experiências retiradas da infância e da adolescência da realizadora chilena. A ficção aproveita-se desses elementos mais ou menos directamente autobiográficos para obter uma maior credibilidade documental e emocional nesta história comum de amores e desamores de um grupo de jovens no Chile do princípio dos anos 1990, logo após o fim da ditadura de Pinochet. Sem nostalgia escusada, é um delicado exercício de reconstuição de um período histórico concreto mas sobretudo uma arqueologia emocional das particularidades de uma fase da vida que no cinema nos tem dado maravilhosas experiências de redescoberta do que fomos quando tínhamos menos de 18 anos e não éramos razoáveis. (N.S).

L’île au trésor

O Verão chegou, o calor aperta e na região de Paris há um parque de diversões amplo e familiar. Terra de aventuras, brincadeiras e transgressões para os mais novos, lugar de refúgio e evasão para os adultos e campo de batalhas amorosas para os adolescentes. Guillaume Brac (“Tonnerre” e “Un monde sans femmes”, IndieLisboa 2016) oferece-nos um cândido documentário, cheio de ficções, sobre as piratarias da vida e os tesouros que se escondem numa tarde bem passada entre folhagens e folhadinhos de carne. A revista Cahiers du cinèma considerou-o um dos melhores filmes de 2018.

Sete Anos em Maio

Affonso Uchôa (vencedor do Prémio Especial do Júri no indieLisboa 2017 pela longa “Arábia”) dá-nos a conhecer a história de Rafael numa noite interminável, junto à fogueira, em longos monólogos: um dia invadiram-lhe a casa e ameaçaram-no de morte, no outro a sua vida mudou para o pior.

A Rosa Azul de Novalis

Depois de vencer o Grande Prémio do festival, o ano passado, com “Lembro Mais dos Corvos”, Gustavo Vinagre regressa ao IndieLisboa com uma co-realização com Rodrigo Carneiro (estreante na realização, após uma carreira como montador). À imagem do filme anterior, este é um documentário biográfico altamente encenado onde lenda e facto se fundem na figura de Marcelo Diorio, anfitrião do seu ânus aberto e das suas vidas passadas. Aqui, os seus traumas (os abusos, o HIV) fazem-se tragicomédia literária e o seu charme subversivo não deixa ninguém indiferente.

Wyprawa do magicznego wodospadu

Numa estética de vídeo-jogo vintage, “Journey to the Magic Waterfall” é uma fábula triste sobre um zé-ninguém a quem é concedido um desejo: ter uma bela voz de rouxinol 8-bit.

Martin pleure

 Recorrendo ao jogo de vídeo ‘Grand Theft Auto V’, acompanhamos Martin (um hooligan sentimental), numa onda de violência tintada de solidão e desespero: “Martin pleure” (IndieLisboa 2017).

Notre heritage

“Notre héritage” reflecte sobre o peso da descendência: Lucas é filho de um conhecido pornógrafo e a sua relação com o pai faz-se através dos seus abusivos filmes. É possível amar sem emoção?

Chiens

“Chiens”, realizado por Caroline, apresenta-nos um homem que, num país de montanhas e florestas, deixou de reconhecer os seus fiéis cães.

Querência

Do espanhol, querencia remete para desejar, é o local que se ama. Também no Brasil é o lugar onde o gado foi criado ou tem por hábito pastar. O sítio onde alguém vai buscar a sua força – um homem, o touro – onde se sente em casa. Marcelo é um cowboy que vê a sua vida tomada por uma nuvem negra quando um violento assalto ocorre na fazenda onde trabalha. Sem chão, é obrigado a repensar a sua vida. Mas é também a oportunidade de perseguir um sonho: o de ser narrador de rodeios. E assim se desenha uma nova querencia, um novo lugar onde se sente em casa, junto dos seus touros, de novo forte e são. Helvécio Marins tece uma narrativa com base real – os seus não actores e as suas vidas são transportados para este território, e carregam consigo toda a experiência e sentimentos que entregam a força de um touro a este filme. Enquanto isso, os animais olham-nos com a pujança de quem relembra: tempos negros estão a chegar para o Brasil, mas a força vai e vem, por ondas, ela não nos abandonará completamente. (M.M.)

Ich war zuhause, aber

Logo a começar pelo título, que cita “Eu Nasci, Mas…” de Ozu, o nono filme de Angela Schanelec impõe umas reticências. Um rapaz de 13 anos desaparece durante uma semana, para reaparecer misteriosamente. Esse regresso deixa em suspenso a sua mãe e os seus professores, assim como o filme, que paira de personagem em personagem. Schanelec (“The Dreamed Path”, IndieLisboa 2017), pertencente à Escola de Berlim, preserva o seu estilo minimalista, rigoroso e elíptico, feito de detalhes sugestivos. Este filme deu-lhe o prémio de Melhor Realização no festival de Berlim.

Tant qu’il nous reste des fusils à pompe

Em “Tant qu’il nous reste des fusils à pompe”, o ar escalda, as ruas esvaziam-se, as palmeiras amarelecem, as caçadeiras choram e Joshua deseja morrer. Mas há um irmão que precisa de companhia e um gang chamado Iceberg (vencedor do Urso de Ouro).

Entre dos aguas

Isaki Lacuesta é considerado uma das figuras de maior relevo do cinema espanhol da atualidade, em particular devido à docu-ficção “La leyenda del tiempo” em que acompanhava dois jovens irmãos ciganos após a morte do seu pai. 12 anos depois o realizador torna a eles, na mesma fronteira onde a realidade se esbroa. Cada um tomou caminhos muitos distintos: Isra acaba de sair da prisão e tenta sobreviver vendendo sucata e amêijoas, já Cheito, na marinha, hesita sobre uma missão perigosa que o afastará da família mas compensará financeiramente. Melhor Filme no festival de San Sebastian.

We

O mar. Comida. Fogo.

Wong Ping’s Fables 1

Um elefante budista, uma galinha viciada em redes sociais e um tronco de árvore com medo de insectos entram numa carruagem de metro… Parece uma anedota, mas é uma alucinada e ácida animação pop sobre o narcisismo.

Yellow Line

Em Los Angeles o trânsito é caótico e só há uma força que o controla: as linhas amarelas que separam as faixas e condicionam o tráfego. “Yellow Line” é uma ode ao gesto de delinear o mundo e aos trabalhadores que levam a cabo esta tarefa.