Todos os Mortos

Caetano Gotardo, Marco Dutra

IndieLisboa 2020 •

Ficção, 2020, 120′

No ano passado o IndieLisboa, no programa Brasil em Transe, mostrou filmes de importantes autores do emergente e combativo novo cinema brasileiro, entre os quais Seus Ossos e Seus Olhos de Caetano Gotardo. Em 2018 tínhamos visto já As Boas Maneiras de Juliana Rojas e Marco Dutra. Agora, a dupla Gotardo/Dutra traz-nos uma história de duas famílias e de assombrações trazidas pelo espectro da escravatura, numa São Paulo da viragem para o século XX.

Maria, uma freira, avança pelas escadas escuras com uma tocha na mão. Assustada, como se algo a observasse, espreitando no escuro. A cena parece um puro arquétipo do fantástico, mas nada, absolutamente nada será como esperamos em Todos os Mortos: nem o filme sobrenatural que imaginamos, nem o filme de época que parece evidente. A longa desenrola-se num momento crítico, no crepúsculo do século XIX, durante uma época de mudanças sociais no Brasil. Contudo, a mudança não se efectua com tanta clareza, nem no país, nem na casa rica dos Soares. A escravatura foi abolida no Brasil há dez anos, mas o que resta da mesma nas estruturas sociais, nas relações de classe? Para os Soares, a Europa é “a origem de tudo”, a África é um grande magma indistinto, o tom está nesta forma de paternalismo que os colonos imaginam benevolente e magnânimo. Todos os mortos observam a brancura e sua hegemonia de uma maneira sem precedentes num mundo que parece estar a avançar… mas será que está realmente a mover-se? Para quem? Estreada há alguns anos, a primeira longa metragem de Caetano Gotardo chamava-se O Que se Move. Um título que poderia ter funcionado aqui, num filme em que sentimos um mundo em turbulência e observamos outro que parece congelado para sempre. (Mickael Gaspar)