Jeanne

Bruno Dumont

IndieLisboa 2020 •

Ficção, 2019, 138′

Joana d’Arc é um símbolo da espiritualidade ocidental e o coração da psyche social francesa. Em 2017, Dumont realizou Jeannette, l’enfance de Jeanne d’Arc, um musical baseado numa peça de Charles Péguy. Jeanne é a sequela que recupera, do filme anterior, Lise Prudhomme, de apenas 10 anos, para encarnar a heroína. Não estamos aqui no realismo histórico, mas sim na modernização de um mito a partir de uma infância que se renova, de uma condição feminina que se liberta.

Bruno Dumont adapta novamente textos de Charles Péguy dedicados à figura histórica de Jeanne D´Arc. Estamos em 1429, Jeanne é presa e julgada. Depois de uma Jeannette dançante e despreocupada, esta segunda parte parece mais austera e teatral, mas revela-se mais sensível e majestosa. A expressão do corpo dá lugar à expressão do verbo. O filme já não é uma comédia, como o foram as suas obras desde a série Le P’tit Quinquin. O cineasta parece reavivar a sobriedade do passado e escolhe relatar os eventos (uma guerra, um julgamento, uma igreja) unicamente pelas vozes, sejam elas um comentário (as personagens são como os apresentadores de rádio da acção), um interrogatório, ou uma música. Essas disputas oratórias tornam-se fascinantes e conseguem pela força da evocação substituir a acção. Cada palavra, interpretada com fragilidade por actores não profissionais, tem um timbre e enunciação singulares. Com uma distância totalmente brechtiana, o jogo vocal não preserva menos o mistério de Jeanne e o nosso fascínio. O cineasta questiona a nossa relação com a espiritualidade. O profano e o sagrado se misturam-se, à imagem do cantor Christophe, um convidado improvável do cinema de Dumont. (Mickael Gaspar)