Isabella

Matías Piñeiro

IndieLisboa 2020 •

Ficção, 2020, 78′

Como acontecia com Éric Rohmer, que sempre gostou de trabalhar por séries de filmes, também Piñeiro tem-se dedicado àquilo que chama de “Shakespereadas”. Filmes que adaptam comédias do dramaturgo inglês às relações de uma geração contemporânea jovem. Aqui a peça é Medida por Medida e no seu centro está um mosaico preciso, de temporalidade não linear, em que as escolhas profissionais e pessoais da actriz Mariel (María Villar) são postas em equação.

Os filmes de Piñeiro são como ele próprio: sóbrios, elegantes, distintos e especiais. Isabella, nome de uma personagem de Shakespeare, é a aspiração de Mariel que quer representá-la mas tem dificuldade em concentrar-se por problemas financeiros. O filme nunca é simples na sua construção e o espectador é convocado para deslindar as inúmeras possibilidades de narrativa que cada plano nos dá. Assim, quem olha o quê, como na magnífica entrada em que vemos uma pessoa ao fundo de um pequeno cais e vamos rever este plano mais vezes e de diversas formas. No cinema de Piñeiro as personagens tomam as dores de quem querem representar como se a vida não passasse de um jogo de representação, o que significa um pensar fino e crítico sobre a sociedade contemporânea. Não é à toa que aproveita o universo shakespeariano dos grandes temas para estabelecer um ponto universal comum, para depois ter liberdade de falar do que lhe interessa. O seu grande poder é tornar as coisas simples e cheias de significado. (Miguel Valverde)