Babai

Artem Aisagaliev

IndieLisboa 2020 •

Ficção, 2020, 65′

Se não adormeceres vem aí o papão e leva-te! Na mitologia eslava quem rapta as criancinhas é Babai. O filme de Aisagaliev contém esse medo onírico do crescimento, mas é sobretudo uma vertiginosa viagem sensorial pelas primeiras impressões visuais e sonoras da infância. Dois irmãos e um pai bastante severo. O mundo rasga-se diante dos olhos, são memórias sem nitidez, pedaços de alegria, de humilhação. É a excitação traumática e cromática da infância.

Artem Aisagaliev, nascido na Rússia e a viver nos Estados Unidos, volta à casa dos seus avós no extremo oriente russo para mergulhar profundamente nas suas memórias de infância, escolhendo quase exclusivamente apenas os membros da sua família nesta primeira longa-metragem, Babai. Pelos olhos dos dois irmãos mais novos, o realizador vagueia pela fronteira nebulosa entre o mundo infantil e o dos adultos, uma fronteira que não se atravessa sem deixar marcas. A câmara cola-se aos planos fechados claustrofóbicos dos rostos, mãos e costas dos dois miúdos, que se movem livremente num espaço muito limitado, o espaço que encolhe diante dos olhos, para dar lugar a uma disciplina militar. Os rapazes não choram neste mundo desprovido de presença feminina e, se o fizerem, Babai, criatura mítica do folclore, irá levá-los. Babai também é o nome do avô dos rapazes, e esta é uma linha fácil de ler: os meninos serão levados, um dia, do mundo de surpresas e maravilhas, para cumprirem o seu dever como homens. (Anastasia Lukovnikova)