Tarde para morir joven

Tal como a primeira longa de Dominga Sotomayor (De jueves para domingo, Grande Prémio do IndieLisboa 2012), Tarde para Morir Joven é um coming of age provavelmente alimentado por memórias e experiências retiradas da infância e da adolescência da realizadora chilena. A ficção aproveita-se desses elementos mais ou menos directamente autobiográficos para obter uma maior credibilidade documental e emocional nesta história comum de amores e desamores de um grupo de jovens no Chile do princípio dos anos 1990, logo após o fim da ditadura de Pinochet. Sem nostalgia escusada, é um delicado exercício de reconstuição de um período histórico concreto mas sobretudo uma arqueologia emocional das particularidades de uma fase da vida que no cinema nos tem dado maravilhosas experiências de redescoberta do que fomos quando tínhamos menos de 18 anos e não éramos razoáveis. (N.S).

Mar

O mar é o sítio onde nos desejamos perder de vista: deixar a cidade e, com ela, os seus problemas e situações. Por vezes, para onde vamos com alguém para amá-la de novo no tempo das férias e da ausência de notícias do mundo. Mas o espaço vazio desse tempo é também um teste: à relação que temos, ao sufoco familiar, ou àquilo que deixámos na cidade para perder essa vista. E vermos, num ápice, as rupturas caírem como os raios de uma tempestade sobre a água do mar. “Mar” é também um nome de personagem no filme de Dominga Sotomayor, uma das autores mais promissoras do cinema sul-americano (vencedora da Competição Internacional do IndieLisboa 2012 com “De jueves a domingo”).

Aqui, em Lisboa

Em 2013, para celebrar o seu décimo aniversário, o IndieLisboa tinha convidado quatro realizadores a filmarem em Lisboa: Dominga Sotomayor e Marie Losier (vencedoras da Competição Internacional com “De Jueves a Domingo”, em 2012, e “The Ballad of Genesis and Lady Jaye”, em 2011, respectivamente), e Denis Côté e Gabriel Abrantes, duas presenças recorrentes do festival. “Aqui, em Lisboa” é o surpreendente resultado – quatro autores com quatro visões diferentes da cidade de Lisboa, passando pelos registos da ficção, do documentário, da comédia ou do fantástico. Mas com o traço comum que espelha o festival que os acolhe: a independência.

De jueves a domingo

Um fim de semana familiar é a proposta deste road-movie. Aquilo que poderia ser um momento íntimo de partilha a quatro é, contudo, manchado pela constatação de que será a última vez que estarão todos juntos. Há dois mundos no carro ‚ o banco de trás que acompanha com pequenas intromissões as nucas quase sempre em tensão dos pais, e o banco da frente que dividido a meias, tenta comunicar para trás apenas o seu lado mais positivo. Há assim, um terreno minado o qual é necessário tactear com cuidado. Quero dormir cansada frase cantada no filme, vem atestar o fim da relação, como uma balada de despedida. Embora jovem, Dominga Sotomayor segura o filme com pinças de mestre, revelando cada detalhe com doçura e emoção, criando imagens com sombras, tirando partido de luzes e da paisagem, fazendo-nos penetrar num universo familiar do qual nunca nos sentimos intrusos, nem voyeuristas. (Miguel Valverde)