Přes Palubu!

Continua a chover e a Arca de Noé está prestes a partir. Mas a ave kiwi e o camaleão não estão na lista de passageiros. Os dois amigos decidem entrar no barco e viajar clandestinos. O que vai acontecer quando forem descobertos?

The Booksellers

Nos anos cinquenta existiam quase quatro centenas de livrarias em Nova Iorque. Hoje subsistem menos de cem. D.W. Young retrata o negócio de livros raros na cidade, num momento de viragem. Das lojas antigas e seus clichés – homens de tweed, ávidos leitores entre pilhas de livros -, e as lojas mais modernas, com livreiros jovens, cheios de ideias que pressupõem uma interacção mais presente com a comunidade.
 

Der kleine Vogel und die Bienen

Estamos na Primavera. O passarinho toma conta dos primeiros ramos que surgem na árvore. As flores desabrocham, uma a uma, atraindo a atenção das abelhas. Despertado pelo seu doce néctar, o passarinho segue as amiguinhas até ao prado cheio de flores.

Slučaj Makavejev ili Proces u bioskopskoj sali

A estreia de W.R. – Os Mistérios do Organismo (1971) de Makavejev – que poderemos ver no ciclo “50 anos do Fórum da Berlinale” – provocou um grande debate na sociedade jugoslava de então. A associação entre sexo e o comunismo era tida por ofensiva. A obra de Radovanović retrata esse debate, através de gravações clandestinas da altura, ao mesmo tempo que traça o perfil de uma era do socialismo tardio no país e sua reduzida liberdade artística.

A Metamorfose dos Pássaros

Premiada na nova secção Encounters do Festival de Berlim, esta é uma obra que pertence às famílias e seus mistérios. Em particular, a família da realizadora e a figura de Beatriz, sua avó, que se casou com Henrique, oficial da marinha, aos 21 anos. Com o marido no mar, Beatriz tratou de seis filhos, entre os quais Jacinto, o pai da cineasta. Ser mãe, imaginar, viver sem liberdade, tudo é metamorfose criativa e emocional nesta primeira longa de Vasconcelos.

Com uma pungente primeira obra, Catarina Vasconcelos traz-nos o retrato de uma família, a sua, narrada pelos seus habitantes e reinventada por ela. Através de cartas, quadros, flores, cortinas, estatuetas, puzzles e barcos vai-se construindo um universo perfeito, com vida e com morte, mas sobretudo com o coração. E o coração de Catarina é resistente e forte, é doce e cheio de carácter, tem ambição e engenho. Permite que cada quadro construído (o filme avança por sequências narrativas) possa ter a sua independência e seja construído através do carácter das personagens trabalhadas. Um jogo performativo com essa característica lúdica que é o apaziguamento após a brincadeira. A inteligência demonstrada quando a realizadora se esconde atrás dos espelhos na floresta ou quando sobe às montanhas, levando a adversidade ao limite quando tenta levantar uma árvore, são formas de afirmação de um cinema autoral e pessoal feito em nome de um encantamento e na base da tradição oral. Voa Catarina voa porque ainda vivem nos teus pensamentos “todas as coisas excepcionais que constrói o universo daqueles que não temem a gravidade”. (Miguel Valverde)

The Moon and the Sledgehammer

Quando Philip Trevelyan conheceu a família Page, a viver num bosque na zona rural de Sussex, ficou fascinado. O pai, septuagenário, vivia com os seus quatro filhos adultos, num mundo à parte, sem água ou electricidade. Estávamos em 1969, mas a família vivia ainda como no final do séc. XIX. Filmado em super 16mm, num estilo realista e observacional, esta é ainda hoje uma fascinante obra de culto sobre o avanço tecnológico e as múltiplas formas de viver.
 

The Other Lamb

Estamos no seio de uma comunidade muito singular. Um homem, conhecido como o Pastor, e o seu rebanho, composto por um conjunto de mulheres que o seguem, adoram e para ele trabalham. A fazer lembrar obras como The Handmade’s Tale (Bruce Miller) ou The Village (M. Night Shyamalan), a realizadora polaca Malgorzata Szumowska procura refletir sobre os rituais separados da civilização, mas sobretudo a lógica da dominação masculina sobre o mundo feminino.
 

Die seismische Form

“Na sua quarta presença no festival, Zwirchmayr baseia-se num texto de Jean Baudrillard para reflectir sobre a matéria e a forma. O corpo humano, o analógico da película encontram-se com uma condição sísmica, geológica. Solidez que parece estável, mascarando a volatilidade.

Antoinette Zwirchmayr cria um mundo em que o que importa são as texturas e as superfícies. Pedras negras e brilhantes que refractem a luz e salientam caras humanas. Rocha branca, suave e lisa onde corpos nus repousam. Um constante jogo de formas, cores e arquitectura marcado por uma tensão entre o inerte e uma qualquer erupção que se avizinha. (Ana Cabral Martins)

El Tango del Viudo y Su Espejo Deformante

Foi ainda no Chile que Ruiz começou a realizar esta história de amor incondicional e fantasmas. Em 1973, o Golpe Militar forçou-o ao exílio deixando inacabada aquela que seria a sua primeira longa. Anos depois apareceram as bobinas do que havia sido rodado. Valeria Sarmiento, sua viúva, com a ajuda de especialistas em leitura de lábios, pôde reconstruir os diálogos e terminar este filme sobre um homem a quem lhe aparece o fantasma da sua viúva.

Borom sarret

É já com quarenta anos e com vários romances publicados que Sembène começa a filmar. Nesta sua segunda curta, considerada por muitos historiadores como um dos primeiros filmes realizado por um negro em África, seguimos um condutor de carroça pelas ruas pobres e desoladas de Dakar.

L’enfant sauvage

Truffaut tinha como um dos seus temas a reflexão sobre a natureza da educação. Podemos constatar isso em filmes como Les 400 Coups ou Farenheit 451, como também nesta adaptação das memórias científicas de Jean Itard, um médico francês que, em 1798, encontrou numa floresta um menino de 12 anos – o “menino selvagem” – que havia estado até aí separado da civilização. Truffaut encarna o médico, o mestre, o pai Itard, nesse difícil processo educativo.

El Año del Descubrimiento

1992 foi um ano importante para Espanha: os Jogos Olímpicos de Barcelona e em Sevilha, a Exposição Universal. Mas a narrativa de um país próspero e moderno teve o seu reverso. Como numa grande obra enciclopédica iluminista, o realizador irá escutar as conversas de um típico bar de Cartagena, dando voz às pessoas – trabalhadores, desempregados, manifestantes – que viveram a chegada da crise económica, o fecho das fábricas e várias revoltas incendiárias.
Através de uma recolha meticulosa de depoimentos, El Año del Descubrimiento foca-se no ano de 1992 que deu lugar à Expo de Sevilha, aos Jogos Olímpicos em Barcelona e à revolta da classe trabalhadora que incendiou o Parlamento de Múrcia. Na segunda longa-metragem de Luis López Carrasco, o realizador trabalha novamente num discurso documental, desta vez através do revivalismo histórico e social de conversas esquecidas num bar em Cartagena, Espanha. O filme é composto pela contribuição de 45 cidadãos de bairros periféricos de Cartagena e La Unión, e da narração das suas memórias daquele tempo. Um momento histórico quase esquecido é trazido à luz do presente sublinhando a im­portância do diálogo sobre consciência de classe, a crise económica e o papel dos sindica­tos. Sobretudo, um filme que ilumina a importância do resgate da memória depois do esqueci­mento encoberto pelo passado, e o consequente poder vital do cinema na sua recuperação. (Inês Lima Torres)

There Will Be No More Night

To shoot: a gun or a movie camera. The military analogy is born with the beginning of cinema. Eléonore Weber’s (Les Hommes Sans Gravité, IndieLisboa 2008) documentary is exclusively based upon footage recorded by French and American soldiers in Iraq, Syria and Afghanistan.  From the top of their helicopters, a viewfinder scans the night and watches for suspicious activity from moving heat dots. They have the power to take or keep lives.

“”There is always the risk of being wrong, but once we open fire, it is difficult to stop””. When flying in the theater of external operations, all that the military helicopter pilots see is filmed and then archived. It is by relying exclusively on these images and on the anonymous testimony of a pilot that the director Eléonore Weber created There will be no more night, an amazing and meticulous documentary telling the war entirely in the eye of the beholder and gradually expanding from very precise technical explanations to broader questions on morality and society. Restoring the decryption of different situations by her anonymous witness pilot, the filmmaker scrolls through a large sample of terrifying episodes where surveillance, frightening precision of the shots, the anguish of errors (which inevitably occur) intermingle. From mountains to cities, bodies fall on the screen, the wounded are finished, passers-by walk… the camera’s eye rivets them… The most recent cameras can suppress the night: “”Soon, some will see as if it was daylight. The rest will remain in darkness.”. (Mickael Gaspar)

Eyimofe

Todos os anos Nollywood, a Hollywood nigeriana, produz cerca de mil filmes. Destes quase nenhuns viajam para fora de África. Caso diferente para a primeira longa metragem dos irmãos gémeos Esiri que, a partir de duas histórias, em certo sentido também elas gémeas, abordam o desejo de sair para a Europa. Mofe, um homem que faz reparações numa fábrica e Rosa, empregada de bar e cabeleireira, procuram uma saída da colorida e aprisionante capital, Lagos.

O desejo que move duas histórias autónomas cruza-se na esperança comum das suas personagens de migrarem para outro país. Espanha e Itália são as duas partes do filme, duas cidades-sombras (ou cidades-sóis) que nunca se chegam a materializar no filme em ruas que as personagens possam percorrer. Não conseguem sair de uma vibrante e desigual Lagos: a jornada de Mofe e Rosa é o centro da acção – dos desesperantes impedimentos financeiros e burocráticos às tragédias pessoais que, note-se, os irmãos Esiri nunca deixam cair no dramatismo excessivo, nesta forte primeira obra para cinema. Mofe e Rosa querem um futuro melhor para o seu núcleo, mas o que o filme questiona é se essa Europa-futuro não será mais que uma ilusão e se Lagos não será igualmente decepcionante. Procura-se o desejo de Mofe e Rosa e o território a que pertence. (Mafalda Melo)

Toomas teispool metsikute huntide orgu

O pai lobo perdeu o seu trabalho, mas como é um bonzão resolve começar a trabalhar às escondidas como gigolô para manter a família. Por sua vez, a mãe lobo, que está de balão, também tem os seus segredos envolvendo seminários de emancipação feminina.

Toomas é um lobo engenheiro num trabalho muito bem pago; ele é também extremamente atraente. É despedido e vê-se sem rendimentos para suportar a sua família que inclui a sua companheira grávida Viivi. Toomas encostado à parede aceita um trabalho como gigolô. Viivi inscreve-se numa conferência sobre empoderamento feminino. As situações e peripécias escalam e as duas viagens sobre descobertas sexuais que Toomas e Viivi fazem culminam numa bizarria sem igual. (Rui Mendes)

Mulher como Árvore

Elba já viveu muito. A sua rotina é feita de tarefas em casa e no campo, do cuidado dos animais, de “cartas no ar” que escreve à eternidade. O colectivo de realizadores Los Segundos filmou uma carta de resposta, a partir da resistência e força de Elba.

Sub Corrente

Na obra de Alice dos Reis, artista residente entre Lisboa e Amesterdão, o mundo marinho tem sido objecto de reflexão. Nesta ficção, os cardumes de krill carregam nanocâmaras. Estarão conscientes das imagens que produzem e que são objecto do olhar humano?

Tipografic majuscul

O ponto de partida de Uppercase Print é a história verídica de uns graffitis que surgiram em 1981 pintados na sede do partido comunista, em Botoșani, com mensagens críticas ao regime de Ceaușescu e toda a investigação subsequente para encontrar e “corrigir” o culpado. Recorrendo a uma peça que o encenador Gianina Cărbunariu fez sobre o caso, mas também a vídeos de arquivo, Jude problematiza acerca da formatação do indivíduo em tempos ditatoriais.

Num grande número de filmes que se seguiram mas não se assemelham, Radu Jude tem vindo a construir uma das obras mais pungentes e emocionantes do cinema romeno contemporâneo. Afinal, o que têm em comum a farsa picaresca Aferim!, o surrealismo literário de Scarred Hearts e a encenação histórica do jogo de espelhos I Do Not Care If We Go Down in History as Barbarians? Sem dúvida, mais do que parece: primeiro uma ironia discreta mas cortante, e acima de tudo um olhar intransigente sobre a história velada do seu país – não importa a época e o género cinematográfico. Existem dois tipos de imagens em Uppercase Print. Primeiro, imagens de arquivo a preto e branco dos anos 80 sob Ceausescu. Imagens emocionantes e assustadoras de propaganda sorridente, na qual vozes robóticas repetem com alarde os slogans da ditadura. As outras imagens datam de hoje, produzidas num estúdio com neons brilhantes em cores vivas. De frente para a câmara, os actores recitam (mais do que repetem) os relatórios escritos pelas milícias comunistas. Descrições desproporcionalmente numerosas e detalhadas, relacionadas com o mesmo incidente: um simples slogan revolucionário escrito em letras maiúsculas (daí o título) por um estudante romeno nos anos 80. A notícia é simples, o autor do grafitti foi rapidamente identificado mas a máquina administrativa do fascismo aterroriza, implacável pela força da repetição. A investigação é interminável, como um monstro gigantesco que não se consegue matar. Uppercase Print alterna entre estas duas famílias de imagens, entre estes dois contos tensos com vozes monocórdicas que arrepiam a espinha: o anedótico e o nacional, a história oculta e a propaganda, o sorriso superficial e a loucura nos bastidores de ontem e hoje. (Mickael Gaspar)